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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

nous sommes tous des grecs!

(*) preâmbulo:

A Guerra Civil Espanhola (1936-1939)

«Em 1936, a Espanha estava politicamente dividida em dois campos: A Frente Nacionalista e a Frente Republicana. A Frente Nacionalista era um partido conservador, com ideias nacionalistas e fascistas, ao passo que a Frente Popular pertencia ao partido Republicano, com ideais socialistas, comunistas e anarquistas. Devido à oposição entre os dois lados, o monumental conflito deixou um rastro de sangue da matança entre espanhóis e tornou-se a precursora da Segunda Guerra Mundial.»

da wikipedia:
«A Luftwaffe teve a oportunidade ideal de testar seus pilotos, aviões e tácticas na guerra civil espanhola, quando em Julho de 1936 Hitler manda a Legião Condor ao General Francisco Franco, líder nacionalista espanhol, para lutar contra os republicanos e comunistas. Em Abril de 1937, uma força combinada de bombardeiros alemães e italianos sob o comando espanhol nacional destruiu a maioria da cidade basca de Guernica, na Espanha.»

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tradução retirada daqui: http://cadpp.org/node/217


A Grécia luta em 2012 como a Espanha em 1936 (*) – pelos povos da Europa!

Discurso de Sonia Mitralia, membro do Comité Grego contra a Dívida e da Iniciativa das Mulheres contra a Dívida e as Medidas de Austeridade, pronunciado no encontro de Marselha de 17 de Fevereiro 2012, organizado pela campanha francesa «por uma auditoria cidadã da dívida pública».

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O curso da História acelera e os acontecimentos cataclísmicos dos últimos dias na Grécia são de molde a convencer até os mais reticentes: a Grécia tende a ser hoje em dia para a Europa de 2012 o que a Espanha foi para a Europa de 1936! Esta constatação aparentemente ousada não é uma tirada romântica. Não, é um facto imposto pelos nossos governantes, pois quem nos assedia a tempo inteiro desde há dois anos são as Merkel e os Sarkozy, o FMI e os banqueiros, a reacção neoliberal de além-fronteiras nacionais, os que optaram por transformar a Grécia num laboratório das suas políticas desumanas e os Gregos em cobaias da sua terapia de choque.

É mais que tempo de todos nós, povos da Europa, tomarmos à letra o que nos dizem os nossos Merkozy e a sua Troika, e de agirmos em consequência. Aceitemos esse desafio e respondamos sem hesitar que a Grécia vai tornar-se um caso/teste também para nós, para o movimento dos trabalhadores, para os movimentos sociais e feministas, para os povos e os explorados de toda a Europa! Sim, façamo-los compreender que Sim, somos todos gregos, pois estamos todos plenamente conscientes de que o combate do povo grego é definitivamente o combate de todos nós. Que se eles conseguirem quebrar as resistências e submeter o povo grego, a seguir será a vez de todos os outros povos europeus, um após outro, serem postos a ferros…

Talvez se recordem que no início eles nos contavam tretas do género «trata-se de um caso único e especificamente grego, devido ao facto de os Gregos serem uns preguiçosos, dados à corrupção e à mentira». De então para cá, pudemos ver que o buraco negro da dívida não é especificamente grego, que não é devido à suposta… hipertrofia do Estado grego, que é igualmente americano, francês, italiano, japonês. Em suma, é tipicamente capitalista e a crise é… sistémica.

Mas atenção, cuidado com as frases feitas e os clichés, que são inadequados para descrever a actual realidade grega. Será que ainda podemos falar de austeridade, ainda que a classifiquemos de draconiana, quando os salários e as pensões baixaram na Grécia 40, 50 ou mesmo 60%? Quando o poder de compra da esmagadora maioria da população sofreu um corte de 50, 60 ou mesmo 70%? Quando a classe média desse país está arruinada e numa depauperização galopante? Quando os novos salários já não chegam aos 417 euros [na Grécia era quase o dobro antes da crise] e as novas pensões de reforma os 320 euros? Tratar-se-á de simples «rigor» quando um em cada dois jovens gregos está no desemprego e o desemprego geral chegou aos 25%? Como é possível falar de simples… «sacrifícios passageiros» quando a subnutrição já provoca razias na população infantil das escolas primárias e a fome acossa até a pequena-burguesia das cidades gregas? E como pode alguém dizer que tudo isso é necessário para «pôr em ordem as finanças» da Grécia, quando os ministérios admitem cinicamente que as políticas impostas pela força à Grécia falharam, tendo por único resultado o afundamento do país numa monstruosa recessão progressiva, e que a dívida grega jamais poderá ser reembolsada? Será isto um caso de simples sadismo da tristemente célebre Troika, ou antes uma guerra aberta e declarada do capital contra o mundo do trabalho? A realidade quotidiana obriga-nos a admitir: Sim, aquilo a que assistimos na Grécia é uma verdadeira guerra dos poderosos contra os oprimidos, dos muito ricos contra todos os outros. E ao mesmo tempo, não nos esqueçamos disto que é muito grave: assistimos à ressurreição do pior neocolonialismo quando vemos a Grécia humilhada e subtraída de praticamente toda a soberania nacional, tratada pelos seus pretensos… parceiros europeus como uma autêntica colónia, um protectorado sob tutela, dirigida por um Gauleiter [denominação alemã para um dirigente provincial] da senhora Merkel e do senhor Schaeuble…

E os Gregos, que fazem eles? Cuidado, não acreditem no que vos contam dos Gregos. Os vossos meios de comunicação social são como os nossos: a realidade que eles vos descrevem é totalmente irreal. Ao falarem da Grécia actual, fazem questão em afirmar que existe em Atenas um governo de União Nacional apoiado por quatro quintos dos representantes do povo grego. Se fôssemos a acreditar nesta descrição, teríamos de concluir que os Gregos são um povo de masoquistas que adoram ser maltratados…

Evidentemente a realidade é outra. Uma dúzia de greves gerais em menos de dois anos, incontáveis lutas e greves muito duras em todo o país, um clima quase insurreccional desde há meses, um movimento dos Indignados – os Aganaktismeni gregos – que varreu toda a Grécia durante 3 meses, confrontos muito violentos com as forças da repressão, ministros e deputados que já há 10 meses não ousam sair à rua, para não serem vaiados ou mesmo esbofeteados pelos transeuntes, um parlamento sitiado com frequência crescente por centenas de milhares de manifestantes que mais tarde ou mais cedo acabarão por tomá-lo de assalto, … eis um breve resumo do que é a rotina quase quotidiana na Grécia desde há muitos meses.

Mas tudo isto são apenas os abalos premonitórios do grande sismo social que vem aí. De facto, um olhar mais atento revela que a cólera popular atinge actualmente recordes históricos, que o país é como um vulcão social preste a explodir. De resto, as sucessivas sondagens são muito eloquentes. O apoio popular a este governo dito de União Nacional não chega aos 8%, enquanto o conjunto dos partidos à esquerda do PASOK social-democrata sobe acima dos 50%! Tudo muda a uma velocidade alucinante e a paisagem política grega está a sofrer uma reviravolta sem precedentes, porque sectores inteiros da sociedade procuram soluções radicais contra a crise e o empobrecimento galopante. Vejamos um exemplo que ilustra perfeitamente esta situação excepcional, fazendo lembrar cada vez mais o que se passou num certo período entre duas guerras no nosso continente. O PASOK, que, há dois anos, teve um triunfo esmagador nas eleições, conquistando a percentagem recorde de 45%, tem agora segundo as sondagens menos de 10%, enquanto um grupúsculo de assassinos neonazis ronda os 3%! Sim, a sociedade grega está já a caminho de ensaiar a sua própria República de Weimar…

Então, que fazer? A primeira coisa a fazer é gritar alto e bom som que os Gregos não devem pagar esta dívida que os sufoca e que não é deles. Deve ser imediatamente suspensa. Porquê? Para fazer aquilo a que obriga a lei internacional, a ONU, uma quantidade de tratados internacionais, aliás assinados por todos os nossos governos: investir na satisfação das necessidades elementares da sociedade grega – na saúde, na educação, nas infraestruturas, nos serviços públicos, nos desempregados, nas crianças esfomeadas, nas famílias monoparentais, nas mulheres que são agora obrigadas a assumir gratuitamente e em família todas as tarefas assumidas pelos serviços públicos antes do seu desmantelamento e privatização – as quantias astronómicas consagradas ao serviço da dívida pública.

Por quanto tempo? Pelo tempo que for necessário para realizar uma auditoria cidadã da dívida, a fim de identificar a sua parte ilegítima, a qual deve ser anulada e não reembolsada. E tudo isto deve ser feito recusando cair na armadilha das chantagens políticas que repetem incessantemente que uma tal política radical leva automaticamente à saída do euro e da União Europeia, a uma crise nacional inevitável…

Não, não e não. Recusamos pagar esta dívida e ao mesmo tempo permanecemos na zona euro. A razão principal é simples: porque queremos combater convosco, todos juntos, de mãos dadas com todos os trabalhadores deste continente, para pôr fim a esta Europa do capital, das Merkel e dos Sarkozy. Porque queremos criar e amplificar a chamada «crise sistémica» desta União Europeia antidemocrática e anti-social dos ricos. Sim, apenas nos resta uma perspectiva, a única realista e exequível: a do combate comum dos oprimidos de toda a Europa.
Camaradas, mais do que nunca a união faz a força. Unamo-nos, pois todos juntos conseguiremos mudar este mundo em vias de apodrecer. Antes que seja demasiado tarde… E lembrem-se:
Se não formos nós a fazê-lo, quem há-de ser?
Se não for agora, então quando será?...


Discurso de Sonia Mitralia; Marselha, 17.02.2012 – tradução de Rui Viana Pereira
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da Grécia a Espanha, a Portugal -
Cohn Bendit, o conhecido activista do Maio de 68, fala
da hipocrisia da 'ajuda' à Grécia: 
«damos-lhes dinheiro para eles comprarem as nossas armas!»


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in Expresso, 22 de fevereiro de 2012


Manolis Glezos,  sendo atacado pela polícia
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

“Bunga-bunga” governamental

jornal Público, 23/11/2011

por Santana Castilho

Vão chegar mais oito mil milhões de euros. Para uns, são fruto do sucesso da execução do acordo com a troika. Para outros são um degrau na escada descendente da fatalidade que nos marca. Olhando para fora e para dentro, entendo melhor os segundos. 

A austeridade fez implodir num ápice, pela via eleitoral, os governos de três países: Irlanda, Portugal e Espanha. E aliada à necessidade de tranquilizar os mercados, testou, poupando o tempo e a maçada da ida às urnas, sem protestos visíveis e com êxito, o caminho perigoso de substituir sem votos os de outros dois: Grécia e Itália. Papademos, o chefe do executivo grego, veio do Banco Central Europeu e da Comissão Trilateral, de David Rockefeller. Tem por isso a confiança dos mercados. Monti, que chefia o governo italiano, conquistou-a enquanto comissário europeu. Ambos passaram pelo Goldman Sachs, como convém. Passos, obedecendo à troika e bajulando Merkel, esforça-se por merecê-la. Nenhum dos três tem, porém, legitimidade democrática para governar. Os dois primeiros por construção. Passos, por acção. Porque tudo o que prometeu e usou para ser eleito pôs de lado e incumpriu. Porque a política, como forma de melhorar a vida dos cidadãos, não é paradigma que o entusiasme. 

As desilusões e as evidências têm um efeito acumulativo, que afasta a esperança: vi, vezes suficientes, intervenções presidenciais que preteriram o direito dos cidadãos em benefício do desvario do poder; estou ferrado por sucessivas interpretações de juízes do Tribunal Constitucional, doutos que eles sejam, leigo que eu sou, mais concordantes com os interesses das áreas políticas que os indigitaram que com a Constituição que deviam defender; não confio num Parlamento que à saciedade já provou jogar um jogo e não servir um povo, votando como lhe ordenam. Tudo visto, a Democracia e o Estado de Direito estão em licença sabática. Resta que a quarta República lhe ponha cobro. Porque a mãe de todas as crises é a crise de um regime podre. De um regime de contabilistas, manobrado por maçons, irmãos da “Opus Dei” e jogadores da “opus money”. 

A fixação na contabilidade única está a gerar uma espécie de “bunga-bunga” governamental. O ministro da economia ainda consulta as resmas de gráficos e tabelas que trouxe do Canadá para decidir se caímos para os serviços, se retornamos às batatas e ao mar, ou se voltamos a esgravatar as entranhas da terra à procura de ferro, ouro, gás e petróleo. Com saudades de Manuel Pinho, vaticinou que “2012 vai certamente marcar o fim da crise”. O ministro das finanças faz com a banca a quadratura do círculo: aceita-lhe o liberalismo quando toca a especular e corre a protegê-la quando o jogo dá para o torto. Mantendo esfíngica serenidade, contenta-se com o anúncio da gestão da emergência: mais impostos, mais desemprego, mais afundamento da economia, mais cortes salariais, mais recuo das funções do Estado. Na educação não superior, um trio de múmias governantes afunda o futuro e soçobra incapaz ao CAPI, à ANC, ao PTE, às TIC, às AEC, ao PIEC, PIEF e PREMAC, aos EFA e aos CNO, siglas que não traduzo a bem da sanidade mental dos leitores, mas que designam parte da teia de esquemas e burocracias que não desenredam e tolhem a gestão das escolas. O ministro da pasta admitiu agora fechar escolas independentemente do número de alunos (até aqui o indicador era menos de 21) e disse estar “ a prever encerrar uma parte substancial das mais de 400 que sobraram” (aquelas cujo fim suspendeu no início do mandato). De resto, o corte na educação é tão colossal que nos devolve, em percentagem do PIB, ao clube dos subdesenvolvidos. Exceptuam-se, por crescerem, as verbas para o ensino privado e para as direcções-regionais de educação, cuja extinção foi anunciada, pasme-se. Face a fortes restrições orçamentais, centenas de alunos de comunidades emigrantes estão sem aulas de Português. O Governo pretende suprimir os cursos ministrados fora dos horários escolares. Se se consumar a iniciativa, porque é esta modalidade a mais frequentada, estaremos perante o quase desaparecimento do ensino da língua materna aos luso-descendentes. Só na Europa, estima-se que já tenham sido afectados metade dos cerca de 50 mil estudantes que existiam há um ano. O secretário de Estado do emprego contou no Parlamento uma anedota que fez rir os mais sorumbáticos: disse que o salário mínimo nacional (485 euros mensais) não é baixo. O secretário de Estado do desporto e da juventude, num assomo de patriotismo, convidou os jovens a zarparem do solo pátrio. O secretário de Estado da administração pública anunciou a intenção de mexer nas tabelas salariais dos funcionários públicos. O ministro Gaspar desmentiu-o e chamou-o de especulador público. 

Simbólicas e absolutas são, afinal, as palavras mágicas que o governante do discurso a 33 rotações soletrou ao retornado de Vancouver, perguntando-lhe, dizem, qual das três não entendia: não há dinheiro! As mesmas que amocharam, conformada, parte da sociedade. Mas que começam a levantar outra parte, que rejeita a suspensão instrumental da Constituição e gritará nas ruas, amanhã, que não aceita o confisco de salários para que o Estado devolva a alguns o que perderam em especulações fracassadas e reponha no balanço da divida o que outros, impunemente, roubaram. Eis o óbvio moral que os ditadores de circunstância fingem não entender, esmagando direitos constitucionais e civilizacionais que tomam por privilégios e ignorando, quando não decretando novos, os verdadeiros privilégios.
s.castilho@netcabo.pt

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

jovens europeus: a vida em suspenso

Grécia: retrato de jovens com a vida em suspenso
Saem à rua em forma de protesto e aproveitam as potencialidades da Internet, mas sentem-se com a vida em suspenso.

Público3- notícia completa aqui

Qualquer coincidência entre as reivindicações da população mais jovem da Grécia e as da portuguesa "Geração à Rasca" não é mera coincidência. Os jovens gregos saem à rua em protesto mais vezes que os portugueses e vêem-se a braços com o mesmo tipo de dificuldades. Económicas e sociais. Emprego é o que mais falta.
O P3 conversou com quatro adultos jovens da Grécia. Todos trabalham, mas não é por isso que sentem menos na pele as dificuldades. Tomam, até, as dores de todos os outros jovens que não têm a mesma sorte.
Em comum têm diplomas universitários – às vezes mais do que um – e o sentimento de que não têm culpa nem responsabilidades na situação de crise que o seu país atravessa. Para Marianna Vasileiou, de 27 anos, os jovens gregos "não conseguem avançar". Têm a vida em suspenso, como se alguém tivesse carregado no botão de "pausa" de um telecomando e se tenha esquecido de fazer "play" de novo.

Artista visual, Evi Apostolou prefere a metáfora de que combatem "um inimigo sem rosto" que, pelas suas características globais, não lhes dá nenhuma pista de como o podem tentar combater. É uma situação "injusta", acima de tudo.

Eva Levi tem perfeita consciência da "sorte” que tem em não viver, diariamente, com a corda no pescoço. Por trabalhar no sector privado, não sente na pele, diariamente, o medo de perder o emprego. Espera um novo ano "muito mau", só suportável se se eliminarem os pequenos luxos de cada um.

Esteve fora da Grécia nos últimos dois anos e acha que os jovens gregos pouco mais podem fazer, hoje em dia, do que esperar que a crise passe. Matemático de profissão, Ioannis Papageorgiou acredita que o pior ainda está para vir, ainda que, daqui por 10 ou 15 anos, esta crise se possa transformar numa oportunidade para mudar o que está mal naquele país.
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